A revolta da vacina

Atualmente é muito raro encontrarmos alguém que questione a necessidade da vacina. Seus benefícios já foram mais do que comprovados e os riscos são muito pequenos, especialmente quando se considera o fato de que a partir dessas pequenas doses é possível não contrair uma série de doenças extremamente graves.

Algumas das enfermidades que hoje estão erradicadas eram até muito pouco tempo atrás a causa de verdadeiras epidemias, que dizimavam cidades inteiras e sepultavam a existência de inúmeros povos. Para citarmos um exemplo histórico sabe-se que a maior parte dos índios que estavam no Brasil antes da chegada dos portugueses morreu por ter contraído gripe, doença para a qual não tinham anticorpos e que já era parte do cotidiano dos colonizadores europeus.

Se agora lidamos positivamente com a obrigatoriedade dos programas de vacinação, como isso ocorreu no início do século XX no nosso país? Bom, a discordância foi praticamente total, o que deu origem a uma das revoltas mais comentadas de nossa história.

 

 

O trabalho de Oswaldo Cruz

O sanitarista nasceu em São Paulo em Agosto de 1872. Em 1887, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou com louvores. Em 1896 foi convidado a estagiar no prestigiadíssimo Instituto Pasteur, localizado em Paris. Em 1899, já em Santos, ajudou no combate de um surto de peste bubônica.

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Oswaldo Cruz

 

Com tanto prestígio em pouquíssimo tempo ele foi convidado pelo então presidente Rodrigo Alves a assumir o posto de diretor-geral da saúde pública. Passou a ocupar o cargo em 1903.

A maior preocupação do governo naquele momento era o combate da varíola e da febre amarela, que estavam descontrolados. Oswaldo Cruz não tardou em organizar mutirões para caçar os insetos responsáveis pela transmissão da doença, mas logo percebeu que sem uma ação mais geral isso dificilmente surtiria o efeito desejado.

Para conseguir enfrentar primeiramente a varíola, o sanitarista então resolveu insistir com o governo para que tornasse a obrigação contra a enfermidade obrigatória. A lei em questão foi aprovada em 31 de Outubro de 1904 e em seu texto era permitido que as brigadas sanitárias entrassem nas casas a força se fosse preciso, acompanhadas sempre de policiais.

 

 

A revolta

Os problemas começaram pela ausência de informação e pela truculência do governo, que ao invés de tranquilizar a população e explicar a ela os benefícios do procedimento resolveu coagir os cidadãos na base da força.

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Protesto popular contra a vacinação obrigatória

 

A maioria das pessoas estava confusa e preocupada. Além das ações dos Mata-Mosquitos, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Pereira Passos, também ordenara a demolição de diversas casas nas favelas e cortiços, conhecidos por serem muito insalubres e acumularem agentes transmissores de doenças.

Para piorar a situação os jornais da época alardeavam que a vacina na verdade faria mal e que devia ser aplicada nas partes íntimas, questão extremamente incômoda já que as mulheres jamais deviam ser vistas nuas por nenhum outro homem além de seus maridos.

Em 5 de Novembro a questão começou a se agravar, quando a oposição do governo criou a Liga Contra a Vacina Obrigatória. Entre 10 e 12 de Novembro houveram inúmeras passeatas de revoltosos que chegavam até o Palácio do Catete, sede do Governo Federal.

 

De 13 a 16 de Novembro a cidade virou um verdadeiro campo de guerra, especialmente porque em 14 do mesmo mês os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha também participaram da revolta. O povo exaltado depredou lojas, incendiou bondes, fez barricadas, arrancou trilhos, quebrou postes e ainda atacou as forças policiais, utilizando paus e pedras.

 

 

O desfecho

Com o caos instalado não houve outra alternativa senão decretar estado de sítio para conter a rebelião. Houveram 30 mortes e mais de 100 pessoas se feriram. Muitas pessoas acabaram presas e a maioria foi enviada para o Acre como punição.

Ainda assim, o povo venceu. Quando a campanha voltou a lei de obrigatoriedade da vacinação havia sido suspensa, então recebia as doses quem queria, fazendo-se a partir de então um trabalho muito mais social e coercitivo com os cidadãos. Desse modo os adeptos foram aumentando e em poucos anos a varíola foi erradicada da cidade.

 

 

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Autor: Andressa Faria de Almeida

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