Independência do Brasil: a liberdade supervisionada

O dia 7 de setembro de 1822 é o marco em que é comemorada a independência do Brasil. E a primeira imagem que costuma vir à cabeça de muita gente é aquela pintura de Pedro Américo chamada de Grito do Ipiranga. Imponente, com uma espada na mão, D. Pedro, o primeiro imperador do Brasil, é desenhado como um herói imperial.

Mas foi isso mesmo que aconteceu? Por que essa imagem continua a ser propagada nos livros de História? Qual a mensagem que querem que tenhamos desse momento histórico? É preciso entender melhor e analisar criticamente o que sabemos quando o assunto é a independência do Brasil.

 

 

O que levou à independência do Brasil?

Diversos fatores contribuíram para que o Brasil pudesse ser chamado de independente. Mesmo ainda sendo governado por um português a partir de 1822, esse ano foi um grande divisor de águas na história brasileira. Mas a data só refletia a situação vivida até aquele momento.

 

Crise no antigo pacto colonial. Depois de 300 anos sob o domínio português, a economia brasileira começava a experimentar uma crise no início no século XIX (a partir de 1801). Ainda era mantida a mesma estrutura dividida em capitanias, que ficavam subordinadas a Portugal. O tabaco e o algodão, principais produtos de exportação viram uma queda na sua produção.

Houve um esgotamento das jazidas de Minas Gerais e a pecuária também não estava se desenvolvendo como o esperado. Devido ao monopólio comercial, a colônia só podia fazer negócios com a metrópole. E isso acabou afundando o Brasil cada vez mais.

 

Cenário internacional. Em 1776, os Estados Unidos declaram sua independência. Já em 1789, houve a Revolução Francesa, espalhando os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade. Esses dois acontecimentos começaram a disseminar, em diversas colônias espanholas e portuguesas, o desejo pela independência.

 

Chegada da família real portuguesa em 1808. De todos os fatores, o que talvez tenha propiciado ainda mais a independência foi a mudança de toda a corte portuguesa para o Brasil em 1808. A partir daí, a colônia passa a ser a capital do império e muitas mudanças importantes acontecem.

O príncipe regente, D. João VI, foge com sua família e diversos membros da corte de Portugal depois da pressão feita pelo imperador francês Napoleão Bonaparte. Os portugueses estavam sendo acusados de terem furado o bloqueio continental, que proibia os países europeus de comercializar com a Inglaterra. Como os ingleses eram um dos principais parceiros comerciais de Portugal naquele momento, a solução encontrada foi a fuga.

D João VI - desfilando


D João VI – desfilando

Saiba mais sobre esse tema em nosso artigo: A chegada da família real portuguesa ao Brasil.

 

Abertura dos portos. Mas o ano de 1808, então, foi o grande marco. Com a família real, os portos brasileiros foram abertos às chamadas nações amigas, ou seja, essencialmente a Inglaterra. E isso representou o fim do pacto colonial.

Assim, o Brasil adquiriu certa liberdade que não tinha antes. Se antes tudo o que Brasil produzia era dirigido à metrópole, a partir daquele momento, a colônia poderia comercializar diretamente com outros países, mesmo que ainda restritamente.

 

Insatisfação popular no Brasil. Muitos comerciantes e outros cidadãos brasileiros estavam insatisfeitos com a cobrança de impostos e os abusos que os portugueses estavam cometendo desde que se instalaram no Rio de Janeiro. Assim, alguns se reuniram em movimentos libertários, como a Revolução Pernambucana, em 1817.

 

Revolução do Porto, em Portugal. Se a presença da corte portuguesa trouxe muitos benefícios ao Brasil, o mesmo não aconteceu em Portugal. Com a saída de D. João, o país estava sendo governado por um comandante inglês. E o povo não estava gostando muito da sua forma de conduzir o país.

Isso levou a um movimento revolucionário na cidade do Porto, em agosto de 1820. Esse evento ficou conhecido como Revolução Liberal do Porto. Eles queriam o retorno de D. João e a recolonização do Brasil.

 

D. João volta a Portugal. A pressão sobre D. João foi grande. E ele decidiu ceder em abril de 1821, quando partiu de volta para Portugal. Assim, D. Pedro fica sendo responsável por substituí-lo no Brasil.

Dom Pedro I. Retrato por Simplício Rodrigues de Sá, c. 1830


Dom Pedro I. Retrato por Simplício Rodrigues de Sá, c. 1830

Portugueses pressionam retorno de D. Pedro. A briga pelo trono em Portugal faz com que um grupo de lá exigisse que D. Pedro também voltasse para o país. Mas os brasileiros queriam que ele ficasse.

Em janeiro de 1822, então, ele diz a famosa frase:

“Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto. Diga ao povo que fico!”

Essa data, conhecida como Dia do Fico, deixou a independência ainda mais próxima.

 

Tentativa de derrubar D. Pedro. Antes mesmo de declarar a independência e se tornar imperador, D. Pedro já era o grande interventor entre Portugal e o Brasil. Desde maio de 1822, nada acontecia sem seu “cumpra-se”. E isso gerou revolta em alguns grupos.

Na Bahia, houve uma luta entre tropas portuguesas e brasileiras. Eles decidiram que D. Pedro estaria na ilegalidade e deveria voltar imediatamente para Portugal. A partir de então, não tinha como não decretar a independência. A melhor forma, então, era que o próprio regente fizesse isso.

 

Grito às margens do Ipiranga. O dia 7 de setembro de 1822, então, ficou conhecido como a data do Grito do Ipiranga. Isso porque D. Pedro teria recebido uma carta de seu pai no caminho entre o Rio e Santos. Como estava às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, teria dito a famosa frase:

“Independência ou Morte!”.

Essa era uma ótima estratégia, de forma que o D. Pedro I acabou se tornando o primeiro imperador do Brasil, assumindo a coroa em dezembro daquele ano. Foi uma independência feita por portugueses, inclusive o mesmo grupo que já estavam no poder há anos.

Então, há muitos que consideram que ainda havia certa subordinação a Portugal. Mas, de qualquer forma, D. Pedro tinha a liberdade inclusive de contestar as decisões de seu pai em relação ao Brasil. E era preciso também atender aos interesses de grupos locais para não haver novos movimentos.

 

 

Curiosidades sobe o Grito do Ipiranga

O quadro de Pedro Américo, feito 1888, 66 anos depois do evento, sempre foi considerado um dos maiores símbolos da independência do Brasil. Mas aquela cena jamais existiu. Pelo menos, não foi da maneira como ele representou. E existem diversos documentos de que aquilo foi apenas uma forma de mostrar como o império queria ser visto.

Independência ou Morte - quadro de Pedro Américo (Museu do Ipiranga, São Paulo). Fonte: Wikimedia.


Independência ou Morte – quadro de Pedro Américo (Museu do Ipiranga, São Paulo).
Fonte: Wikimedia.

 

Conheça alguns fatos que não aconteceram bem assim:

    • Anúncio não teria sido feito no Rio Ipiranga. A história recente descobriu provas que mostram que D. Pedro parou em cima de uma colina com uma crise de diarreia quando decidiu declarar a independência. As margens do Ipiranga, então, seriam o local equivocado.
    • Não tinha tanto público. A pintura de Américo mostra uma comitiva enorme acompanhando o príncipe regente. No entanto, havia muito menos gente. E nem houve nenhum conflito armado, como deixa a entender com todos empunhando as espadas em mãos.
    • Animal errado. Embora pareça que D. Pedro e todos estivessem em cavalos, na verdade, o grupo estava montado em mulas. Essa era a forma mais comum de viajar pelo Brasil naquela época.
    • Casa do Grito talvez não tenha feito parte do cenário. Ao fundo direito do quadro, há a chamada Casa do Grito. No entanto, o local parece não ter existido época. Historiadores só conseguiram encontrar registros sobre o espaço a partir de 1884.
    • Nada de traje de gala. A obra mostra que todos estariam usando uniformes de gala, quando, na verdade, as roupas eram mais comuns, do dia a dia. Portanto, esse foi mais um artifício para valorizar o ato.

Portanto, a independência do Brasil foi, certamente, um momento importante de conquista de novas liberdades. Mas havia um limite para isso, já que ainda manteve-se durante o império uma ligação forte com Portugal, ainda mais com um imperador português no trono.

E nem tudo aconteceu como a literatura e arte mostra. É importante problematizar isso para que a gente entenda cada um dos momentos históricos do Brasil, ainda mais quando se trata da independência. É para isso que existem os documentos que comprovam fatos e desmentem a história oficial.

 

 

 

Para saber mais

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Hino da Independência do Brasil

Letra de: Evaristo da Veiga
Música de: D. Pedro I

Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil…
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo juvenil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá
… temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

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Autor: Ariane Rodrigues Annunciação

Jornalista graduada (2011) com Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) (2016). Seis anos de experiência com redação de textos jornalísticos para revistas, jornais, blogs e sites, especialmente de assuntos como política, educação, esporte e cultura oriental.

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