A revolta da chibata

Em 1910 a República já havia sido proclamada no Brasil e a escravidão abolida. Apesar de tantos avanços em tão pouco tempo, as forças armadas seguiam tratando os marinheiros como seres inferiores, sem deixar de aplicar neles castigos cruéis e medievais aos menores erros. A aplicação de penas como as chibatadas, eram comuns. Cansados dessa condição alguns marinheiros se rebelaram, marcando seus nomes na história de nosso país em definitivo!

 

 

O levante

Naquele tempo eram muito comuns as punições físicas aplicadas nos marinheiros que cometessem qualquer tipo de deslize. Os oficiais que ocupavam os postos mais altos da Marinha acreditavam que o fato da população não ver o que acontecia permitiria que levassem à frente a barbárie, sem grandes consequências.

A maioria dos marinheiros eram negros ou mulatos. E eram comandados por oficiais brancos. Pode-se perceber então que a discriminação (resultante de séculos de escravidão) ainda estava muito arraigada na sociedade e mesmo dentro das Forças Armadas. Já que os marinheiros eram tão maltratados que não se pode deixar de comparar com o tratamento dos escravos negros.

A maioria dos países desenvolvidos já havia abandonado essas práticas disciplinares, sendo que o Brasil ainda as mantinha …  Os marujos, que viajavam constantemente para outros países, começaram a perceber isso. E a planejarem uma revolta.

Imagine que você fosse um marujo naquele tempo. Você e seus companheiros, acostumados a trabalharem duro e serem humilhados, se sentiriam muito revoltados ao constatarem que em outros países esses castigos foram abolidos. Mas muito revoltados mesmo! Sabendo que serviam a uma Marinha que havia recém adquirido os navios mais modernos do mundo, vocês ainda tinham que se submeter a castigos como as chibatadas. Ou serem obrigados a assistir seus colegas serem submetidos a isto.

Quem para eles fazia por merecer era preso em alguma das celas de isolamento do barco, como um criminoso. O uso de palmatória também era constante, assim como as chibatadas. Foram elas que, aliás, acabaram por nomear a revolta.

O movimento contava com assembléias clandestinas e tinha sua data combinada para ocorrer. Entretanto, o estopim da revolta foi antecipado com o castigo aplicado ao marinheiro Marcelino Rodrigues. Este teve 250 golpes de chibata desferidos em seu corpo, pela falta de trazer cachaça a bordo e ferir um marinheiro que o delatou. O castigo covarde e desproporcional revoltou os seus colegas, obrigados a assistir a cena incólumes. Cansados de serem vítimas de tantos maus tratos eles se juntaram e assassinaram o capitão do navio Minas Gerais. Outros três superiores também foram mortos.

Encouraçado Minas Geraes

Encouraçado Minas Geraes

 

 

O Almirante Negro

Enquanto esse fato ocorria outros insurgentes conseguiram a adesão do navio chamado São Paulo para o motim, de modo que quando a nau chegou a cidade do Rio de Janeiro as reivindicações já estavam listadas e o plano traçado.

Além do fim dos castigos físicos e psicológicos os marujos exigiam o reajuste de seus honorários, assim como a possibilidade de terem uma alimentação mais saudável e acomodações menos insalubres.

João Cândido, que ficou mais tarde conhecido como o Almirante Negro, redigiu junto com o marinheiro Francisco Martins a carta com as solicitações que precisavam ser cumpridas para que a revolta terminasse.

Ao lado de um dos Marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: fim dos castigos corporais (Agência Estado)

Ao lado de um dos Marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: fim dos castigos corporais (Agência Estado)

 

A promessa era de que se não houvesse uma resposta positiva da parte do presidente Hermes da Fonseca e do Ministro da Marinha os marinheiros bombardeariam a cidade do Rio de Janeiro, não poupando também os demais navios que deixassem de se rebelar.

Os navios se mantiveram na Bahia da Guanabara, em posição para atacar o Palácio do Catete (sede do governo federal). Até chegaram a fazer disparos de canhões. Mas como o propósito era só demonstrar ao governo que não estavam brincando, usaram os canhões mais fracos, evitando usar os da bateria principal.

 

 

As repercussões

Depois de dias tensos em que o governo não cedia e tão pouco os marinheiros, o então presidente prometeu acatar as reivindicações dos insurgentes, contanto que eles entregassem as embarcações e as suas armas.

Foi concedida a anistia e o fim da chibata. A promessa é de que os revoltosos não sofreriam nenhuma punição. Mas não foi isso que aconteceu. Dois dias após a anistia, o governo descumpriu o acordo que havia feito, e aprovou um decreto que permitia a demissão de marinheiros “inconvenientes à disciplina”. Começava assim a perseguição. Muitos marinheiros que participaram do motim foram banidos e grande parte foi preso. João Cândido inicialmente foi poupado, para não chamar a atenção (já que se tornara uma celebridade pela liderança na revolta).

Nesse clima de revanchismo e tensão, ocorre uma segunda revolta. A dos fuzileiros navaisTropas do Exército que serviam à Marinha, que estavam instalados na Ilha das Cobras. Esta segunda revolta nada têm a ver com a primeira, e foi desencadeada por motivos incertos, mas o governo a usa como justificativa para decretar o estado de sítioEstado de exceção decretada pelo presidente que permite plenos poderes ao Estado diante de uma ameaça ou calamidade pública. O governo ganha então plenos poderes para agir. A partir disso, este inicia uma série de retaliações, massacrando os fuzileiros navais e se vingando dos marinheiros do primeiro movimento.

João Cândido entrega o comando do Minas Gerais ao capitão Pereira Leite

João Cândido entrega o comando do Minas Gerais ao capitão Pereira Leite

 

A triste verdade é que o governo executou um verdadeiro massacre e teve liberdade para aplicar suas represálias. A ação foi abafada rapidamente pelas tropas do Estado, o que significou a morte de muitos marinheiros e a expulsão de tantos outros. Na Ilha das Cobras, os fuzileiros hastearam a bandeira branca e mesmo assim continuaram sendo bombardeados. João Cândido foi preso em um calabouço na Ilha das Cobras, ele e mais um companheiro foram os únicos sobreviventes. Quando de lá saiu demonstrava um temperamento muito amargurado e sofrendo alucinações, por ter presenciado a morte de muitos marujos e as atrocidades da Marinha. E em 1912, foi julgado e inocentado.

O governo também promovou o exílio de muitos ex-marinheiros na Amazônia, pondo-os a bordo do navio Satélite, para trabalhos forçados na extração dos seringais. Vários foram fuzilados no meio do caminho até lá.

A imprensa pouco falou sobre a segunda revolta. Os militares proibiram o acesso da imprensa na Ilha das Cobras e toda a barbárie cometida pelo governo só começa a ser descoberta e a ganhar as manchetes dos jornais a partir de Janeiro de 1911.

Embora para aqueles marujos a vitória não tenha sido plena e os sacrifícios enormes, é indiscutível que a Revolta da Chibata foi determinante para a transformação do trato recebido pelos oficiais de baixo escalão dentro de qualquer área das forças armadas. A partir da visibilidade que a história tomou, a questão passou a ser discutida. Se esse tipo de punição passou a não existir mais na Marinha devemos todas as honras ao Almirante Negro e aos seus companheiros de luta e resistência.

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Você sabia?

  • A posição oficial da Marinha é não fazer reconhecimento explícito ao marinheiro Joâo Cândido. Isto porquê a Marinha não pode apoiar publicamente a subversão da hierarquia militar, considerado crime dentro das Forças Armadas;
  • João Cândido sempre quis voltar ao mar, mas enfrentou inúmeras barreiras devido a sua liderana na revolta. Morou em outros países, mas não conseguindo se adaptar, retornou ao Brasil. Se tornou vendedor de peixe na praça XV no Rio de janeiro. Quando o velho navio Minas Gerais estava para ser vendido a um jornalista, João se dirige até a embarcação, e acaricia e beija o casco, com os olhos cheios de lágrimas.

 

 

Multimídia

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Para se aprofundar

Links recomendados

  • http://chibatas.blogspot.com.br/ – Blog exclusivo sobre a revolta, criado pelo historiador Eduardo Seabra e Silva, com muitos detalhes sobre a vida de João Cândido, sobre a revolta e curiosidades.

Bibliografia recomendada

  • ALMEIDA, Silvana Capanema P. de. O Almirante Negro: glória a uma luta inglória. História viva. São Paulo: Dueto Editorial, jan. 2006. p. 74-80.
  • GRANATO, Fernando. Canhões Contra a Chibata. Aventuras na História. São Paulo: Abril, jul. 2004. p. 52-57.

 

 

Créditos

Autor: Andressa Faria de Almeida

Revisão: Diego Queres.

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Autor: Andressa Faria de Almeida

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